sábado, outubro 20#SoumaisoPolêmico

Intersecção – FÁDUA

No início de Brasília, bailes no Clube Rabelo na Vila Planalto eram muito concorridos. O ambiente não comportava todos que gostariam de estar lá dentro. No sufoco, mesas para quatro acolhiam cinco ou mais pessoas. Pista de dança congestionada, principalmente quando, na penumbra, a orquestra de Raulino executava músicas celebrizadas por Ray Conniff, Românticos de Cuba, Billy Vaughn, Frank Pourcel, Henry Mancini, Glenn Miller, Percy Faith etc.

Foi no baile “Uma noite no Havaí” do Clube Rabelo que Fádua estreou sua presença e participação na comunidade rabelense. Além da simpatia, da alegria e da graciosidade notadas e valorizadas por todos, quase nada mais se sabia sobre aquela novata e sua família.

Fádua raramente negava convite para dançar. Curtia o ritmo suave dos passos agarradinha, com o rostinho colado, delirando ao receber bicotas disfarçadas, ouvir versos e galanteios cochichados ao pé do ouvido e outros chamegos.

Linda filha de seu Jamil, libanês radicado no Brasil e – naquela época – experimentando um comércio de confecções populares na Vila Planalto. Instalações de madeira simples abrigavam a loja, como também sua residência anexa. Viera para Brasília de Paracatu/MG, para onde migrara e se estabelecera com sua esposa Nádia, depois de desembarcarem no porto de Santos/SP. Tiveram duas filhas mineiras, Mayla, a primogênita, séria e do tipo graúdo, e Fádua, com dezoito anos recém-completados. Esta, com físico e jeitinho alegre de adolescente, sempre a exibir simpatia e sorrisos. A diferença de idade entre as duas parecia bem maior que os três anos registrados. Ao contrário da irmã mais velha, a jovem fazia-se socialmente descontraída e facilitava a paquera, sem preconceito.

Nas relações familiares, Fádua era o xodó do pai. Recebia carinho e atenção especiais, não lhe faltando roupas novas e perfumes de qualidade. Seu jeito liberal, fazia-a guardada como joia sob permanente monitoramento contra investidas de “gaviões”. Sabia-se que seu Jamil se mudara para Brasília quase foragido, em razão de ter contratado três fortes meganhas para dar corretivo caprichado num cidadão casado, de meia idade, que já andava muito assanhado para o lado de Fádua.

Após o baile do Havaí, Fádua passou a frequentar e participar dos programas sociais da chamada turminha da Rabelo. Não perdia os melhores eventos do Clube: bailes, bingos, festa junina e ensaios de quadrilha e outros tipos de reunião. Além disso, gostava de estar por lá nas manhãs de domingo para um simples bate-papo, cantar com Jeremias e Isaias ao violão, ler jornais e revistas, ouvir mentira, jogar “escravos-de-jó” e outras inocentes, mas divertidas, atividades. Como todo membro da comunidade vilaplanaltense, Fádua passou a frequentar também o Motonáutica, alternativa de encontro da juventude.

Seu Jamil não relaxava a vigilância, fazia questão de levar e buscar as filhas em sua vemaguete, fossem para onde fossem. Pastorava Fádua com a atenção de pai coruja encharcado de ciúmes. Só permitia suas ausências de casa se na companhia da irmã Mayla, segundo ele, mais ajuizada e rigorosa “vela” para as eventuais tentativas de excessos de Fádua.

Ainda assim, a bela turquinha, como era também conhecida, escapava à vigilância. Procurava namorar eclipsada dos olhares abelhudos atrás de biombos diversos, fosse um cantinho, uma moitinha etc. Mas, nunca o interior de automóvel – Mayla advertia. Namoro fixo, continuado, não lhe parecia fazer bem. A rapaziada logo descobriu essa sua faceta e passou a aguardar na fila.

Não raro, a turma da Rabelo programava algo que quebrasse a rotina dos domingos. Pescaria, piquenique, churrasco num sítio ou na margem de algum rio, visita à chácara de João Grossi no Lago Sul, baile na roça, sarau no Bancrévea, em Sobradinho etc.

Certa vez, partiu-se para uma festa campestre na fazenda de Euzébio Tavares, nas proximidades das cachoeiras do Rio Corumbá, na localidade de Corumbá/GO. Euzébio, jovem engenheiro da construtora Pederneiras, era enturmado com o pessoal da Rabelo. Assíduo nas serenatas, tocava gaita de boca e cantava sem desafinar. Decidira comemorar seu aniversário naquele domingo. Em sua fazenda, criava gado de leite e tinha um variado pomar com mangueiras, jaqueiras, citros, cana, abacaxi e outras fruteiras.

Muitos dos convidados foram em seus próprios veículos, inclusive seu Jamil, esposa e filhas. Hemitério levou uns oito na boleia e na caçamba de sua Ford F100. Mais de 15 pongaram num caminhão cedido pela Rabelo.

Grande casarão acolhia a todos para a troca de roupas, uso de banheiro etc. De almoço foi servida fumegante feijoada regada a caipirinha, cerveja e refrigerante. Pelas três, começou uma tarde dançante animada por trio nordestino num amplo salão circundado por cadeiras e sofás.

Fádua não perdeu tempo. Desde cedo garrou namoro com Felipe, do Acampamento Pacheco Fernandes. Dançaram sob os atentos olhares de seu Jamil. De repente sumiram. Mayla, mandada a procurar a irmã, foi achá-la na brenhas da mata, perto das corredeiras espumantes. Aos brados ordenou seu retorno imediato, informando que seu pai já sentira sua falta e ficara aborrecido. O casalzinho, com ares de bem comportado, logo após o regresso de Mayla, ingressou no salão já dançando e misturando-se aos demais pares para disfarçar e evitar perguntas ou repreensão.

Vestindo saia e blusa brancas, Fádua não se dera conta de ter trazido visivelmente colados às costas, indícios reveladores de onde e em que posição estivera com o namorado. Ainda davam voltas no salão quando Mayla afobada partiu para remover os gravetos, folhas e ciscos que se destacavam nas vestes da irmã.

Certamente seu Jamil e dona Nádia não chegaram a notar o vexame. Ou fizeram-se cegos em nome da paz?

*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. E pensador por opção. roberiosulz@uol.com.br

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